Publicado em: 27/02/2026
Por Alessandra Benevides, CEO da Synergia Socioambiental
Recentemente, os Três Poderes da República firmaram um pacto nacional de enfrentamento ao feminicídio, reconhecendo oficialmente a violência contra mulheres como um problema estrutural do Estado brasileiro e uma prioridade transversal de políticas públicas. Esse movimento institucional reforça uma realidade já evidente nos territórios: a violência de gênero deixou de ser apenas um tema social e passou a configurar um fator crítico de risco para o desenvolvimento sustentável.
Em 2025, a violência de gênero no Brasil atingiu níveis históricos. Para quem atua com sustentabilidade, licenciamento ambiental, responsabilidade social e desenvolvimento territorial, esse cenário não pode mais ser tratado como um contexto periférico. Trata-se de um elemento estruturante de risco comunitário, com impactos diretos sobre governança local, participação social, coesão territorial e viabilidade de projetos.
No debate corporativo sobre ESG, a dimensão social ainda é frequentemente reduzida a indicadores internos de diversidade e inclusão. Embora relevantes, essas métricas são insuficientes quando desconsideram a violência de gênero como variável externa de risco social. Em territórios marcados por desigualdade e violência, projetos que ignoram essa dimensão operam com diagnósticos incompletos e estratégias frágeis de mitigação de impactos.
Como CEO de uma consultoria socioambiental fundada por uma mulher e que hoje conta com cerca de 60% de mulheres em seu quadro de pessoas colaboradoras, afirmo com clareza: não é mais possível conceber projetos sustentáveis, responsáveis e legítimos sem enfrentar, de forma explícita, a violência contra mulheres e meninas nos territórios onde atuamos.
Dados oficiais de feminicídio no Brasil (2025)
Segundo dados divulgados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e consolidados em fevereiro de 2026, os indicadores de violência contra a mulher no Brasil em 2025 revelam a dimensão estrutural do problema:
Esses dados evidenciam que a violência de gênero no Brasil não é episódica nem circunstancial, mas sim uma crise estrutural, com efeitos profundos sobre o tecido social e o desenvolvimento dos territórios.
Por que a violência de gênero é um tema central da sustentabilidade
Projetos socioambientais se materializam em territórios concretos, habitados por pessoas, redes sociais e dinâmicas culturais específicas. Nesse contexto, as mulheres desempenham papel central na organização comunitária, na economia local, no cuidado, na gestão de recursos naturais e na mediação de conflitos.
Ignorar a violência de gênero significa subestimar riscos sociais que fragilizam a coesão comunitária, intensificam conflitos, reduzem a confiança institucional e comprometem a participação feminina em processos de consulta, escuta e tomada de decisão. Em última instância, isso compromete a sustentabilidade social do projeto e sua legitimidade ao longo do tempo.
A violência contra mulheres afeta diretamente a percepção de segurança nos territórios, limita a mobilidade, reduz a participação feminina em espaços de liderança comunitária e restringe o acesso das mulheres às oportunidades econômicas geradas por novos empreendimentos.
Quando essa realidade não é mapeada de forma sistemática, os diagnósticos socioambientais tendem a invisibilizar vulnerabilidades específicas, produzindo análises incompletas e estratégias de gestão de impactos menos efetivas. O resultado é o aumento do risco social, da resistência comunitária e da instabilidade operacional.
Como incorporar a perspectiva de gênero na gestão de projetos socioambientais
A integração da perspectiva de gênero deve ser tratada como componente técnico da gestão de riscos e da estratégia territorial.
Nos Estudos de Impacto Ambiental e Relatórios de Impacto (EIA/RIMA), a violência de gênero precisa ser incorporada como indicador de risco comunitário. Isso envolve a análise da percepção de segurança entre diferentes grupos sociais, o histórico local de violência, as vulnerabilidades específicas de mulheres e meninas e os impactos diferenciados que o empreendimento pode gerar.
Os processos de engajamento comunitário devem ser reestruturados para garantir espaços seguros, acessíveis e inclusivos para a participação feminina. Isso inclui adequação de horários, formatos, infraestrutura de apoio para cuidado infantil, além de mecanismos de escuta qualificada, confidencialidade e proteção de grupos vulnerabilizados.
A Licença Social para Operar depende fundamentalmente de confiança e legitimidade. Em territórios com alta incidência de violência de gênero, são necessárias estratégias específicas de relacionamento, prevenção de conflitos e mitigação de riscos sociais. Ignorar esse fator pode resultar em resistência futura, judicialização e perda de credibilidade institucional.
A articulação com redes locais de proteção também é essencial. Parcerias com políticas públicas, serviços especializados, casas-abrigo e organizações da sociedade civil fortalecem a atuação territorial. Embora empreendimentos não substituam o papel do Estado, podem contribuir para o fortalecimento da rede de apoio existente.
Por fim, a gestão deve incorporar indicadores objetivos de igualdade de gênero, garantindo que o tema seja monitorado e priorizado de forma contínua, como parte dos sistemas de gestão socioambiental.
Conclusão: ética, estratégia e sustentabilidade caminham juntas
A violência de gênero no Brasil não é um tema lateral nem exclusivamente social. Trata-se de um fator estruturante que influencia diretamente o desenvolvimento territorial, a governança comunitária e a sustentabilidade de longo prazo de projetos e empreendimentos.
Projetos que ignoram essa realidade operam sobre bases frágeis. Projetos que incorporam a perspectiva de gênero de forma estratégica reduzem riscos sociais, fortalecem sua legitimidade, ampliam impacto positivo e contribuem para um desenvolvimento mais justo e resiliente.
Sustentabilidade real exige o enfrentamento das desigualdades estruturais. E isso começa pelo reconhecimento de que gênero não é apenas um valor — é uma variável estratégica.



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