Publicado em: 12/03/2026
Por Gabriela Goulart, Gerente de projetos da Synergia
Formada em Gestão Ambiental, Mestra em Conservação da Biodiversidade e Sustentabilidade e Especialista em Restauração e Conservação de Paisagens Tropicais
Visto de cima, um avião revela apenas um grande manto verde, atravessado por curvas que ora parecem pequenas linhas, ora formam extensões inteiras de tons verdes ou marrons. De longe, a floresta é isso: uma massa densa de vegetação percorrida por rios.
Mas a floresta vai muito além do que os olhos captam. Ela é movimento, biodiversidade, riqueza natural, animais, solos, rochas. E, sobretudo, pessoas.
A frase da colega Terezinha Perna, coordenadora da Synergia, traduz essa ideia com clareza: “As pessoas são a floresta.” E essa percepção é fundamental para compreender como a relação entre ambiente e sociedade precisa ser integrada, saudável e duradoura.
Sociobiodiversidade: desenvolvimento feito de floresta
É nesse contexto que os povos da floresta nos oferecem, diariamente, uma verdadeira aula sobre como unir conservação e desenvolvimento. Isso se materializa de forma evidente quando cadeias de produção, extração e beneficiamento seguem os princípios da sociobiodiversidade.

Sociobiodiversidade é, essencialmente, a valorização de cadeias produtivas da floresta, como açaí, castanha, cupuaçu, urucum, entre tantas outras. Respeitando os ciclos naturais e os limites do ecossistema, essas cadeias geram renda para milhares de famílias.
Um exemplo inspirador é o trabalho da Associação Agroextrativista Sementes da Floresta (ASSFLOR), apoiada pela Synergia por meio do projeto Redes do Médio Xingu. A organização transforma sementes e frutos da região transamazônica em produtos que fortalecem a economia local e valorizam o território.
Bioeconomia: quando a biodiversidade se torna estratégia
Ao lado da sociobiodiversidade, surge outro conceito-chave: bioeconomia.
A bioeconomia é um modelo econômico que reconhece o valor único da biodiversidade brasileira e direciona esforços — investimentos, pesquisa, inovação, tecnologias, políticas públicas e governança — para fortalecer esse ativo.
Isso significa apoiar a produção, fortalecer organizações sociais, aprimorar infraestruturas e melhorar a logística necessária para a circulação dos produtos da floresta. Promover a bioeconomia é criar condições reais para que as pessoas possam trabalhar, prosperar e viver com qualidade. Tudo isso em alinhamento com a conservação ambiental e com ganhos diretos para a economia do país.
E há um ponto crucial: alternativas socioeconômicas sólidas reduzem a força dos vetores do desmatamento. Retirada de madeira, grilagem e avanço de pastagens ainda ocorrem porque são opções de retorno rápido, porém, quando comunidades têm alternativas viáveis, sustentáveis e estruturadas, a lógica muda.
Cadeias Invisíveis do Pará e Conoinocultura: caminhos para transformar territórios
Os Planos de Alavancagem das Cadeias Invisíveis do Pará, desenvolvidos pela Synergia para o Governo Estadual, representam bem esse movimento. A partir de um estudo profundo das cadeias produtivas do Estado, foi possível identificar gargalos e propor soluções estratégicas que, ainda este ano, devem compor um plano integrado ao PlanBio, impulsionando a sociobiodiversidade e fortalecendo tanto a floresta quanto as populações que dela dependem.
Outro exemplo é o projeto Conoinocultura, realizado por nós no Espírito Santo. Com uma análise detalhada da cadeia do côco, do “berço ao túmulo”, foram identificadas oportunidades de aproveitamento da casca, criando novos subprodutos, reduzindo resíduos e ampliando a viabilidade econômica para comunidades de Serra, Vila Velha e Vitória.
Um convite a olhar a floresta de outro jeito
A bioeconomia nos instiga a repensar como enxergamos os produtos da floresta. Ela une benefícios socioeconômicos e conservação ambiental, valorizando o território e quem vive nele. É um caminho de sustentabilidade real, que fortalece ecossistemas, comunidades e economias.
E, no fim, nos lembra de algo essencial: proteger a floresta é também proteger as pessoas, porque elas são parte inseparável dela.




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