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O desastre é natural?

Publicado em: 14/10/2026

Por Lilian Veltman – Consultora em Estratégia Comercial da Synergia

A chuva é natural. O deslizamento, a cheia e a estiagem, o frio e o calor, também. Já o desastre só acontece quando um fenômeno da natureza encontra pessoas, casas e atividades instaladas em seu caminho, sem proteção e sem aviso. Entre a chuva e a tragédia há uma longa cadeia de decisões humanas, e a atuação nessa cadeia é talvez a única forma de redução de riscos.

No dia 13 de outubro, a ONU escolheu como tema “A resiliência começa em casa” (Resilience Starts at Home). A escolha é precisa: a casa é onde o desastre dói mais e, ao mesmo tempo, onde se materializam decisões tomadas muito longe dela, seja no plano diretor, na licença de uma obra, no orçamento público ou no projeto de um empreendimento. Falar de redução de riscos, portanto, é falar de como a sociedade decide onde e como vive, e a tomada dessa decisão passa por condições socioeconômicas e culturais extremamente complexas.

Na Synergia, partimos de uma convicção que orienta nosso trabalho há mais de duas décadas: os riscos de desastres são construídos socialmente e, por isso mesmo, as soluções têm que nascer na sociedade.

A gestão de riscos trabalha com uma equação simples, adotada pelas Nações Unidas e pelo Marco de Sendai (2015–2030):

Traduzindo para o cotidiano, Ameaça é o fenômeno em si: a chuva extrema, o vendaval, a seca. É a única parcela em que a natureza tem a palavra principal, ainda que ela seja alterada pela ação humana, via mudança do clima. Exposição é quem e o que está no caminho da ameaça: casas na encosta, bairros na várzea, escolas sem rota de fuga; enquanto Vulnerabilidade é o quanto uma pessoa ou comunidade sofre quando atingida, o que depende de renda, de acesso a saúde, idade, gênero, informação. Finalmente, a Capacidade é tudo o que reduz o impacto: o alerta que chega a tempo, o plano de contingência ensaiado, a rede comunitária organizada, os recursos para reconstruir.

O ponto central é este: três dos quatro termos da equação são inteiramente humanos, e o quarto é cada vez mais influenciado por nós. É evidente que não “venceremos a natureza”. Temos que mexer nas variáveis que estão sob nosso controle, porque o risco é, sobretudo, humano.

O Brasil tem mais de um terço de seus municípios, 1.942 do total de 5.570, com moradores em áreas de riscos geo-hidrológicos, segundo mapeamento realizado pela Casa Civil e pelo Ministério das Cidades. O número de cidades com moradores em área de risco, hoje, é 136% maior na comparação com levantamento feito em 2012, quando havia 821 municípios na lista dos mais vulneráveis. O estudo indica que a Região Sudeste tem 48,7% da população em uma situação suscetível a desastres, enquanto a Região Nordeste tem 35,6% de sua população vulnerabilizada e sujeita a tragédias. Essas áreas têm presença desproporcional de famílias de baixa renda, crianças e idosos. Considerando-se que ninguém escolhe morar numa encosta instável por gosto, percebe-se que a cidade formal não oferece alternativa acessível à essa população.

A tragédia da Região Serrana do Rio de Janeiro, em 2011, deixou 918 mortos e ao menos 30 mil desalojados. Desde então, eventos como os deslizamentos no Grande Recife/PE (2022), em São Sebastião/SP (2023) e as cheias no Rio Grande do Sul (2024) repetiram o mesmo padrão: chuvas intensas sobre territórios ocupados sem planejamento, com drenagem insuficiente, alertas que não chegaram a todos e populações sem rota de saída.

Mas o risco não chega só pela água em excesso. Em 2023 e 2024, a Amazônia enfrentou duas secas extremas seguidas. Em outubro de 2024, o rio Negro, em Manaus, ficou abaixo da marca de 12,70 metros encontrada em 2023 e atingiu o menor nível em mais de 120 anos de medição. Só no Amazonas, a estiagem afetou mais de 747 mil pessoas, segundo a Defesa Civil estadual.

Para as populações ribeirinhas, o rio é estrada, mercado, fonte de água e de proteína. Quando ele seca, comunidades inteiras ficam isoladas, e um modo de vida fica suspenso por meses. Crianças deixam de ir à escola; chegar a um posto de saúde, comprar alimentos ou obter água potável torna-se uma travessia difícil. O peixe escasseia, a produção não tem como ser escoada, o barco encalha.

A seca abre caminho para o fogo, quase sempre provocado por mãos humanas. Entre janeiro e novembro de 2024, o Brasil teve 29,7 milhões de hectares queimados, crescimento de 90% sobre 2023; uma área equivalente à do Rio Grande do Sul. Na Amazônia, 7,6 milhões de hectares eram florestas, incluindo florestas alagáveis, justamente os ambientes de que dependem extrativistas, pescadores e povos indígenas. O Pantanal, que já teve cerca de 59% do território atingido pelo fogo ao menos uma vez desde 1985, voltou a arder. A fumaça cobriu cidades a milhares de quilômetros e agravou doenças respiratórias, mostrando que esse tipo de desastre não respeita limites municipais.

Enchente
No Semiárido, a lição é antiga: a estiagem é um fenômeno climático previsível; a fome, o êxodo e a dependência de carros-pipa resultam de escolhas sobre acesso à água, à terra e à renda. Onde se investiu em estratégias de convivência com o clima semiárido, com o uso de cisternas de captação de chuva, tecnologias sociais, organização comunitária, a mesma seca passou a produzir muito menos sofrimento. É a prova de que o desastre se decide antes de o fenômeno chegar.

Quatro vetores humanos explicam boa parte desse quadro:

  1. Ocupação do solo: a expansão urbana em encostas, margens de rios e áreas de várzea, muitas vezes tolerada pelo poder público e sem infraestrutura adequada.
  2. Desigualdade: quem tem menos recursos mora em locais mais expostos, em casas mais frágeis, e tem menos meios para se recuperar. O desastre aprofunda a pobreza que o originou.
  3. Mudança do clima: o aquecimento global, provocado por emissões humanas, torna eventos extremos mais frequentes e intensos, ampliando até a parcela “natural” da equação.
  4. Decisões de investimento: obras, empreendimentos e cadeias produtivas que não consideram o risco o transferem para o entorno, para o futuro ou para o orçamento público.

Há ainda os desastres de origem explicitamente tecnológica, como rompimentos de barragens e acidentes industriais. Neles, a natureza sequer é coadjuvante: o risco nasce e é gerido dentro das organizações.

Nos últimos anos, o Brasil viveu experiências trágicas desse tipo, com perda de vidas, danos ambientais de longo alcance e comunidades inteiras afastadas de seus territórios. Esses episódios mostraram que o risco tecnológico se acumulava em decisões sobre projeto, operação, monitoramento e transparência, até que um único dia revela anos de escolhas. Esses eventos provocaram respostas: o país tornou mais rigorosa sua legislação de segurança de barragens, proibiu métodos construtivos considerados de maior risco e passou a exigir planos de emergência para as estruturas de mineração. A norma, porém, é ponto de partida, e não de chegada: um plano só protege se a comunidade conhece a rota de fuga, reconhece o som da sirene e confia em quem a aciona.

Conscientização: a infraestrutura que não aparece na planta

Muros de contenção, piscinões e sirenes são indispensáveis, mas nenhuma obra funciona plenamente sem uma infraestrutura invisível: pessoas que entendem o risco que correm e sabem o que fazer diante dele. Uma das mensagens centrais da ONU para 2026 resume isso: “um alerta que não chega à casa, não é compreendido ou não gera ação é um alerta que falhou”.

Conscientização, nesse sentido, vai muito além de campanhas pontuais. Ela se constrói quando:

  • O risco é traduzido: mapas técnicos viram linguagem do bairro, e o morador reconhece no próprio quintal o sinal de alerta (uma rachadura nova, uma árvore inclinada, a água que muda de cor);
  • O conhecimento local é valorizado:  quem vive no território há décadas sabe por onde a água passa e onde a terra já cedeu;
  • A escola entra no tema:  crianças e jovens são multiplicadores naturais de informação dentro de casa;
  • A comunidade se organiza:  núcleos comunitários de proteção e defesa civil, simulados periódicos e redes de vizinhança encurtam o tempo entre o aviso e a ação;
  • A confiança nas instituições existe: ninguém deixa a própria casa à noite, na chuva, se não confia em quem emitiu o alerta.

Uma sociedade consciente também é uma sociedade que cobra: exige planos diretores que respeitem o risco, acompanha o licenciamento de empreendimentos, participa de audiências públicas e pressiona por orçamento para prevenção.

A consciência individual é necessária, mas não suficiente. As alavancas que mais alteram a equação do risco estão concentradas em dois tipos de instituição: governos e corporações. São eles que decidem onde se constrói, o que se licencia, quanto se investe e como se responde.

Aos governos cabe o desenho do território. A ONU destaca que o poder público tem papel central em planos de uso do solo orientados pelo risco, na fiscalização de normas construtivas e em garantir que a informação de risco chegue a todas as comunidades. No Brasil, a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil (Lei 12.608/2012) já atribui a União, estados e municípios o dever de priorizar a prevenção. O desafio é transformar a lei em rotina: mapeamentos atualizados, planos de contingência testados, habitação segura para quem hoje vive em área de risco e orçamento estável para prevenir, muito além de reconstruir.

Às corporações cabe reconhecer que todo empreendimento altera o território e, portanto, o risco ao seu redor. Uma barragem, uma rodovia, uma planta industrial ou uma expansão agrícola modificam drenagem, cobertura vegetal, fluxos de pessoas e a economia local. Uma empresa madura em gestão de riscos incorpora cenários climáticos e sociais desde o planejamento, e não apenas no licenciamento; mantém planos de ação de emergência construídos com as comunidades vizinhas, e não apenas apresentados a elas; mede a vulnerabilidade do entorno como parte do próprio risco operacional e reputacional e direciona seu investimento social para aumentar a capacidade local de prevenção e resposta.

A economia confirma esse argumento. Estimativas citadas pela ONU para a data apontam que os custos diretos de desastres giram em torno de US$ 202 bilhões por ano, enquanto o impacto econômico mais amplo chega a US$ 2,3 trilhões. E, como reforça a mensagem de 2026, incorporar resiliência às moradias custa uma fração do que se gasta para reconstruí-las.

Do diagnóstico à decisão: onde a Synergia atua

Se o risco é construído por decisões, reduzi-lo exige decisões melhor informadas, ou seja, informação que chegue, em linguagem adequada, a quem decide em cada nível: do gabinete ao conselho de administração, da sala de aula à associação de moradores. É nesse elo entre conhecimento técnico, gestão e sociedade que a Synergia atua desde 2005, apoiando organizações públicas e privadas em setores como infraestrutura, mineração, agroindústria e gestão pública.

Nossa contribuição percorre todo o ciclo da redução de risco:

  1. Diagnóstico: estudos socioeconômicos e territoriais, com métodos qualitativos e quantitativos, que revelam quem está exposto, quão vulnerável estão e quais capacidades já existem. Risco que não se mede não se gerencia.
  2. Apoio à decisão: tradução desses diagnósticos em cenários, indicadores e recomendações para os níveis decisórios de governos e empresas, permitindo priorizar investimentos onde eles evitam mais perdas.
  3. Prevenção e preparação para emergências: apoio na construção de planos de contingência e de ação emergencial que considerem a realidade social do território, e não apenas a engenharia.
  4. Educação e comunicação social: programas de educação ambiental, comunicação de risco e diálogo social que transformam informação técnica em conhecimento apropriado pela comunidade.
  5. Programas e investimento social: desenho, execução e avaliação de programas de desenvolvimento local, reassentamento e reabilitação socioeconômica, que reduzem vulnerabilidades de forma duradoura.
  6. Monitoramento e avaliação: mensuração do impacto de investimentos sociais e ESG, para que a redução de risco seja comprovada, e não apenas declarada.

O fio condutor é o que chamamos de Soluções Baseadas nas Pessoas: nenhuma estratégia de resiliência se sustenta se as comunidades não estiverem no centro dela como participantes, e não como público-alvo. Integrar quem vive o território ao desenho das soluções é, ao mesmo tempo, uma questão de justiça e de eficácia.

O tema escolhido pela ONU no dia 13 de outubro nos lembra que a casa é a medida final de qualquer política de redução de risco. Mas a segurança de cada casa é decidida em muitas mesas: na prefeitura que aprova um loteamento, na empresa que projeta uma obra, na escola que ensina a ler um alerta, na família que combina um ponto de encontro.

Reduzir riscos é, portanto, um trabalho coletivo com responsabilidades proporcionais ao poder de decisão de cada um. Quem planeja o território, licencia, investe e opera grandes empreendimentos carrega a maior parte dessa responsabilidade e também a maior oportunidade de transformação.

Se os riscos são majoritariamente humanos, a boa notícia é que as soluções também são. A Synergia segue comprometida em colocar conhecimento, método e escuta a serviço de governos, empresas e comunidades que escolhem prevenir. Sabemos que cada desastre evitado não vira manchete; vira um dia comum, em uma casa que continua de pé.

Fontes

11 – Cidades e comunidades sustentáveis
13 – Ação contra a mudança global do clima
10 – Redução das desigualdades

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