Publicado em: 08/11/2026
Por Gabriel Kohlmann e Ricardo Oliva – Coordenadores de Projetos da Synergia
O olhar para o urbanismo é mais simples do que parece. De forma simples, podemos entender o urbanismo como a maneira como pensamos, planejamos e organizamos as cidades e os espaços onde a nossa vida acontece. Vivemos o urbanismo todos os dias. Basta saímos de casa para percebê-lo. Aliás, até a nossa própria casa é reflexo do urbanismo, pois está inserida em uma escala muito maior de planejamento, que envolve decisões sobre onde estarão as áreas de moradia, os empregos, os serviços, os comércios e os equipamentos públicos. Decisões que se refletem diretamente no nosso bairro, na nossa rua e, finalmente, na forma como vivemos em nossa própria casa.
Mas de onde surge esse olhar?
No Brasil, historicamente, não aprendemos urbanismo na escola, ao menos não como um conhecimento considerado essencial para a nossa formação. E é justamente aí que algo se perde. Se não somos ensinados a compreender como as cidades acontecem, possivelmente também não desenvolvemos tão facilmente um olhar crítico sobre aquilo que vivenciamos todos os dias. Passamos a aceitar a cidade como ela nos é apresentada. Aceitamos que determinadas pessoas precisem percorrer grandes distâncias todos os dias, enquanto outras encontram trabalho, serviços e oportunidades perto de casa. Que determinados bairros concentrem infraestrutura e investimentos, enquanto outros permanecem distantes dessa realidade. Que a cidade cresça em determinadas direções e que algumas áreas sejam valorizadas e outras esquecidas.
Mas isso não acontece por acaso. Por trás da forma como ocupamos a cidade existem escolhas, decisões, interesses, investimentos e, principalmente, planejamento, ou a ausência dele.
Talvez seja justamente por não sermos educados a olhar para a cidade dessa forma, que muitas vezes, aquilo que poderia gerar questionamentos se transforma apenas em aceitação.
Se a cidade é resultado dessas escolhas, é preciso também pensar e estabelecer regras para o seu futuro. É aí que entram instrumentos como o Plano Diretor e a legislação de uso e ocupação do solo. Mais do que documentos técnicos ou leis distantes do nosso cotidiano, eles tratam, na prática, da cidade que queremos construir, onde ela pode crescer, onde pode se adensar, como os diferentes usos podem ocupar o território e como infraestrutura, moradia, trabalho, serviços e oportunidades podem se distribuir pela cidade.
Talvez esteja justamente aí uma contradição: decisões que interferem diretamente na vida de todos nós ainda são, muitas vezes, percebidas como um assunto restrito aos técnicos, especialistas, ao poder público e, claro, aos diferentes interesses que atuam sobre a cidade, entre eles o mercado imobiliário.
Essas leis preveem a participação da sociedade em sua construção e discussão. Existem oficinas participativas, audiências públicas e outros espaços nos quais a sociedade civil deve ser incentivada a participar. Mas como participar de uma discussão sobre a cidade se nunca fomos estimulados a olhar para ela de maneira crítica?
Voltemos à escola.
Imagine se todos nós tivéssemos tido, ainda na infância, a oportunidade de desenvolver ao menos um pouco desse interesse e desse olhar para a cidade. Não necessariamente para formar urbanistas, mas para formar pessoas capazes de compreender melhor o território onde vivemos, perceber as escolhas que estão por trás dele e entender que também podem participar das discussões sobre o seu futuro.
E essa participação pode ter reflexos muito concretos na nossa vida. Ao participar dessas discussões, podemos influenciar a forma como a cidade será planejada, defendendo, por exemplo, que moradia, trabalho, comércio, serviços, lazer e equipamentos públicos estejam mais próximos uns dos outros e mais bem distribuídos pelo território. Participar da construção de um Plano Diretor é, portanto, também discutir a cidade que queremos para o nosso dia a dia, uma cidade onde seja possível encontrar mais oportunidades, serviços e atividades perto de onde vivemos, reduzindo a necessidade de grandes deslocamentos.
Talvez, se o urbanismo tivesse nascido mais cedo dentro de nós, hoje ele também estivesse materializado em cidades melhores.
Mas não é tarde para fazer esse olhar nascer. Não é tarde para acompanhar o planejamento das nossas cidades, participar das discussões sobre o Plano Diretor, incentivar nossos vizinhos a participarem e, principalmente, deixar de aceitar a cidade simplesmente como ela nos é apresentada.
Talvez seja esse o primeiro passo transformar aceitação em questionamento, questionamento em participação e participação em cidades melhores. Porque o urbanismo também precisa nascer dentro de nós.
Como a Synergia pode atuar em projetos que envolvem urbanismo?
A Synergia Socioambiental possui ampla experiência na elaboração de Planos Diretores, diagnósticos territoriais e processos participativos, incluindo consultas públicas e escutas coletivas. Esses projetos contribuem para a construção de uma visão compartilhada de desenvolvimento, alinhada às características e aos desafios de cada território.
Esse ano a empresa conduziu um projeto no município de Bataguassu, no interior de Mato Grosso do Sul. A implantação de um grande empreendimento industrial impulsionará transformações significativas nas dinâmicas sociais, econômicas e ambientais da cidade, tornando necessário o aprimoramento do planejamento urbano. Nesse contexto, o trabalho contempla temas como uso e ocupação do solo, mobilidade urbana, infraestrutura e serviços públicos, políticas habitacionais, zoneamento, além de estratégias de resiliência e adaptação às mudanças climáticas.
Como parte desse processo, foi realizada em 6 de novembro de 2026 a primeira Audiência Pública para discussão e debate do novo Plano Diretor de Bataguassu, com a participação da equipe da Synergia. A contribuição da população é fundamental para a elaboração de instrumentos de planejamento mais consistentes, conectados à realidade local e legitimados pelo diálogo com a comunidade.
É a partir de uma visão integrada do urbanismo, capaz de relacionar território, pessoas e qualidade de vida, que a Synergia aplica suas metodologias, análises e propostas. Dessa forma, contribui para o desenvolvimento urbano sustentável e para a construção de cidades mais preparadas para os desafios do futuro.



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