Publicado em: 01/06/2026
Por Cirlene Furini – Gerente de Projetos da Synergia Consultoria Socioambiental
Falar de meio ambiente é, sobretudo, falar de história, espiritualidade e pertencimento. É falar de povos originários que, muito antes de qualquer debate contemporâneo sobre sustentabilidade, já praticavam o cuidado com a terra como princípio de vida.
Inspirado em um encontro mensal da Synergia, o “bate-papo”, que tem como intuito promover reflexões sobre temas relevantes, cuja edição abordou “Protagonismo Indígena: Escutar para transformar práticas e relações”, este texto é um convite à escuta: uma escuta profunda que reconhece o valor dos saberes ancestrais na construção de futuros mais sustentáveis.
Território é saúde: corpo, mente e espírito
Para os povos indígenas, o território não é apenas um espaço físico. Ele é extensão do corpo, da memória e da espiritualidade. Quando uma área é degradada, o impacto não é apenas ambiental: é também humano, coletivo e simbólico. A destruição da floresta afeta diretamente a saúde física, pela perda de alimentos tradicionais e recursos naturais essenciais; a saúde mental, ao romper vínculos com referências culturais e modos de vida; e a saúde espiritual, ao interromper a relação com lugares sagrados e ancestrais.
Por outro lado, a preservação e a recuperação de áreas degradadas permitem a retomada de práticas tradicionais, o fortalecimento da autonomia e a reconstrução da identidade coletiva. Cuidar da floresta, nesse sentido, é também cuidar da vida em sua totalidade.
Coletividade como princípio
Diferentemente da lógica individualista predominante em grande parte da sociedade atual, os povos originários estruturam suas relações a partir da coletividade. As decisões sobre o uso e manejo do território são pensadas para o bem comum, não apenas da comunidade atual, mas também das futuras gerações.
Essa visão amplia o conceito de sustentabilidade. Não se trata apenas de preservar recursos, mas de garantir equilíbrio e continuidade da vida. A natureza não é vista como recurso, mas como parente um ser vivo a ser respeitado. Essa perspectiva oferece um importante aprendizado: não há preservação sem pertencimento, e não há pertencimento sem responsabilidade coletiva.
Reenraizamento: reconectar-se com o território
O processo de recuperação ambiental vai além da regeneração ecológica. Ele promove o que podemos chamar de reenraizamento. Ao restaurar áreas degradadas, os povos indígenas retomam práticas agrícolas tradicionais, saberes transmitidos entre gerações, além de rituais e vivências espirituais ligados à terra.
Esse reencontro com o território fortalece vínculos, identidades e modos de vida. É um processo de cura, tanto da terra quanto das pessoas.
Ao longo da história, muitos modelos externos foram impostos aos povos indígenas, desconsiderando seus saberes e modos de organização. No entanto, o fortalecimento do protagonismo indígena tem promovido um movimento importante de desconstrução dessas imposições. Esse protagonismo se manifesta na valorização dos conhecimentos tradicionais, na autonomia na gestão do território e na participação ativa em decisões que impactam suas vidas.
A atuação da Synergia: o fazer conjunto
Nesse contexto, a atuação da Synergia nesses territórios parte de um princípio essencial: o respeito pelos povos originários e pelo conhecimento que eles detêm. Mais do que levar soluções prontas, o trabalho se constrói por meio do diálogo, da escuta e da valorização dos saberes ancestrais.
O papel das equipes envolvidas está fundamentado no fazer conjunto, um processo colaborativo em que experiências, visões e conhecimentos se encontram. Essa abordagem reconhece que os povos indígenas não são apenas beneficiários das ações, mas protagonistas na construção das soluções, contribuindo ativamente com sua leitura do território, suas práticas e sua forma de se relacionar com a natureza.
Trabalhar dessa maneira é também transformar relações, criando caminhos mais justos, respeitosos e efetivos para a preservação ambiental.
Protagonismo indígena e o futuro do planeta
Em um contexto global de crise climática, os territórios indígenas têm se mostrado fundamentais para a conservação da biodiversidade e a regulação do clima. Os povos originários demonstram, na prática, que é possível viver em equilíbrio com a natureza.
Seus conhecimentos ancestrais contribuem diretamente para a proteção das florestas, a conservação dos recursos hídricos e a manutenção da biodiversidade. Mais do que isso, oferecem uma nova forma de pensar o mundo, baseada na interdependência e no cuidado.
“Agora pelo Clima”: um chamado que já ecoa há séculos
O tema do Dia Mundial do Meio Ambiente de 2026, proposto pela ONU, “Agora pelo Clima”, reforça a urgência de agir diante dos desafios ambientais. Para esses povos, esse chamado não é novo, ele já faz parte de sua existência há gerações.
A ancestralidade desses povos nos ensina que agir pelo clima é cuidar da terra como parte de si. É compreender que preservar é um compromisso coletivo e contínuo, e que o futuro depende das escolhas feitas no presente e do respeito ao passado.
De forma urgente, diante da crise ambiental, um caminho possível é valorizar a escuta ativa e reconhecer o protagonismo dos povos originários. Mais do que nunca, precisamos aprender com aqueles que sempre compreenderam que a vida depende do equilíbrio entre as pessoas, o território e a natureza.




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