Publicado em: 30/03/2026
Por Alessandra Benevides, CEO da Synergia Socioambiental – Arquiteta Urbanista, Especialista em Gestão Estratégica da Sustentabilidade
O Mato Grosso do Sul vive uma das transformações econômicas e territoriais mais profundas de sua história recente. A consolidação do Vale da Celulose, no leste do Estado, reposicionou a região como um dos maiores polos globais de produção de celulose, atraindo investimentos de escala inédita e redesenhando dinâmicas sociais, urbanas, ambientais e institucionais.
Como profissional que atua há mais de 25 anos na avaliação e gestão de impactos socioambientais de grandes empreendimentos no interior do Brasil, acompanho esse processo com atenção redobrada. O avanço da indústria de base florestal no Mato Grosso do Sul reúne, ao mesmo tempo, enorme potencial de desenvolvimento econômico, mas também riscos que exigem planejamento, coordenação e governança territorial qualificada.
O Vale da Celulose e a consolidação de um polo global
Municípios como Três Lagoas, Ribas do Rio Pardo, Inocência, Bataguassu e Água Clara passaram a integrar um cinturão industrial florestal, impulsionado pela instalação de grandes projetos industriais acompanhados de expansão das áreas de florestas de eucalipto. Estima-se que apenas os investimentos já anunciados e em implantação ultrapassem a casa das dezenas de bilhões de reais.
Esse movimento colocou o Mato Grosso do Sul nas primeiras posições do ranking de produção nacional de celulose, reforçando o protagonismo do Brasil no mercado internacional e abrindo espaço para cadeias produtivas associadas, ganhos logísticos e interiorização do desenvolvimento econômico.
Empregos, migração e pressão sobre as cidades
Do ponto de vista socioeconômico, as oportunidades são significativas. A expectativa é de geração de aproximadamente 100 mil novos postos de trabalho até 2032, entre empregos diretos e indiretos, concentrados principalmente nos municípios que receberão as plantas industriais.
Esse crescimento, no entanto, ocorre de forma acelerada e simultânea, provocando intensos fluxos migratórios e pressionando cidades médias e pequenas que não foram historicamente planejadas para esse nível de demanda. Os efeitos associados a esta expansão tão rápida serão: aumento do preço dos imóveis, déficit habitacional, sobrecarga dos serviços públicos e desafios na oferta de saúde, educação, saneamento e mobilidade urbana.
Embora todos os municípios do Vale possuam algum instrumento legal relacionado à habitação — como áreas ou zonas especiais de interesse social —, a capacidade de resposta ainda pode ser insuficiente diante da velocidade das transformações territoriais em curso.
Saúde, infraestrutura e serviços públicos: desafios regionais
O setor de saúde é um exemplo claro da necessidade de planejamento integrado. A maioria dos municípios da área de influência do Vale da Celulose apresenta índices de leitos hospitalares apenas próximos do mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Com a chegada de populações flutuantes e permanentes — trabalhadores, familiares e prestadores de serviços —, a pressão sobre os sistemas existentes tende a aumentar rapidamente.
O mesmo ocorre na infraestrutura urbana e regional. Embora existam avanços importantes, como concessões rodoviárias e investimentos em logística, persistem gargalos relevantes em saneamento básico, gestão de resíduos sólidos, conectividade digital e mobilidade urbana.
Impactos ambientais cumulativos e riscos climáticos
Do ponto de vista ambiental, o principal desafio não está em um empreendimento isolado, mas na sobreposição de múltiplos megaprojetos em um mesmo território e intervalo de tempo. A expansão simultânea da base florestal, somada a outros vetores produtivos, como a citricultura por exemplo, gera impactos cumulativos e sinérgicos que extrapolam a lógica tradicional do licenciamento projeto a projeto.
Há riscos associados à pressão sobre recursos hídricos e fragmentação de habitats. Além disso, mapeamento recente de focos de calor na região evidencia um elevado risco de incêndios florestais, agravado pelas mudanças climáticas e pela concentração de ativos florestais.
Neste contexto, a cooperação interempresarial, o monitoramento em tempo real e a articulação com o poder público tornam-se elementos centrais para a proteção do território e a continuidade sustentável da produção.
O papel da governança territorial e da gestão integrada
A experiência acumulada da Synergia Socioambiental em territórios complexos no Brasil mostra que ciclos intensos de investimento exigem mais do que boas práticas individuais de cada empreendedor. Eles demandam coordenação territorial, avaliações integradas de impactos, alinhamento entre empresas, municípios e governos estaduais, e uma visão de longo prazo sobre o legado que se deseja deixar.
Instrumentos como a Avaliação Ambiental Estratégica, planos de ação integrada por microterritório, fortalecimento da gestão pública municipal, investimentos coordenados em habitação, saúde e qualificação profissional são decisivos para transformar crescimento econômico em desenvolvimento sustentável.
Crescer bem é uma escolha.
O Vale da Celulose representa uma oportunidade histórica para o Mato Grosso do Sul e para o Brasil. Pode se consolidar como referência global de bioeconomia, inovação e desenvolvimento territorial sustentável. Evitar reproduzir erros já conhecidos de ciclos econômicos acelerados, concentradores e socialmente desequilibrados é fundamental para que o Estado aproveite estes investimentos em sua plenitude.
Na Synergia, acreditamos que construir relações e olhar o território de forma sistêmica é o caminho para transformar grandes projetos em legados positivos, duradouros e verdadeiramente sustentáveis para o País e para comunidades locais. Foi assim que trabalhamos em alguns municípios do Vale da Celulose nos últimos 10 anos.
Um alto volume de investimentos públicos e privados que já estão em curso, devem ser acompanhados de qualidade da governança, capacidade de antecipar riscos, integrar políticas, envolver atores locais e tratar o território como o ativo mais valioso do processo.

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