Publicado em: 21/08/2026
Nos dias 17 e 18 de agosto, a Synergia participou do 1º Simpósio sobre Gestão de Desastres Socioambientais e Reparação, realizado no Auditório da Faculdade de Direito da UFMG, em Belo Horizonte. Promovido pelo Centro de Estudos e Aperfeiçoamento Funcional (CEAF) do Ministério Público de Minas Gerais, o evento reuniu especialistas do direito, da economia, da gestão pública, da academia e de instituições envolvidas em processos de reparação para debater respostas jurídicas, institucionais, sociais e financeiras diante de desastres de grande magnitude.
Representando a Synergia, participaram do encontro a consultora socioambiental Carla Franco e a coordenadora de projetos Patrícia Vasconcelos Porto, que acompanharam os debates e reflexões sobre os aprendizados gerados a partir dos casos de Mariana em 2015, Brumadinho em 2019 e das enchentes ocorridas no Rio Grande do Sul em 2024. As discussões evidenciaram a crescente complexidade dos processos de reparação e a necessidade de abordagens integradas, capazes de combinar conhecimento técnico, participação social, gestão de dados, governança e acompanhamento contínuo dos territórios atingidos.
Um dos principais temas abordados no simpósio foi a compreensão de que os desastres não se encerram no momento do evento crítico. Seus impactos podem permanecer por anos, afetando renda, trabalho, saúde mental, relações sociais, acesso a serviços públicos, modos de vida e perspectivas de futuro das comunidades atingidas.
As discussões reforçaram que os danos se manifestam de formas diferentes entre grupos sociais, famílias, mulheres, trabalhadores, comunidades tradicionais, agricultores, pescadores e comerciantes, além de atingirem de maneira distinta cada etapa da vida. Nesse contexto, a reparação exige capacidade permanente de adaptação, acompanhamento das mudanças territoriais e revisão das estratégias à medida que novas evidências e necessidades surgem.
A participação social também foi apontada como elemento central para a efetividade dos processos de reparação. Mais do que uma etapa formal, a escuta das populações atingidas deve permitir influência real sobre critérios, prioridades, decisões, monitoramento e mecanismos de governança. Metodologias participativas bem conduzidas contribuem para reduzir assimetrias de informação, fortalecer relações de confiança e construir soluções mais aderentes às características de cada território.

Outro aprendizado destacado foi a importância da produção de evidências para orientar decisões em contextos complexos de reparação. Ferramentas como matrizes de danos, indicadores sociais, sistemas de monitoramento, análises econômicas e avaliações de impacto permitem compreender melhor os efeitos dos desastres e das medidas implementadas.
Ao mesmo tempo, o simpósio ressaltou que muitos impactos não são imediatamente traduzidos em números ou documentos formais. Perdas de renda, enfraquecimento de redes de apoio, adoecimento mental, ruptura de modos de vida e inseguranças quanto ao futuro exigem abordagens integradas que articulem análises quantitativas, qualitativas e leitura territorial.
Para as consultorias que atuam nesses contextos, ficou evidente que a efetividade dos instrumentos técnicos depende da capacidade de compreender as especificidades dos territórios, identificar vulnerabilidades e incorporar a realidade das comunidades atingidas. A escuta qualificada e a presença em campo deixam de ser apenas instrumentos de participação para se tornarem fontes estratégicas de informação para a tomada de decisão.
“Entre os principais aprendizados, destacou-se a complexidade dos processos de reparação, que não se limitam à execução de acordos ou ao pagamento de indenizações. O papel da consultoria é transformar a escuta territorial em informação, integrar evidências à tomada de decisão e acompanhar se as ações estão produzindo resultados efetivos e sustentáveis.” destaca Patrícia.
Os debates sobre Programas de Transferência de Renda (PTR) e Auxílio Emergencial evidenciaram a relevância dessas medidas para garantir proteção social em cenários de alta vulnerabilidade. No entanto, os especialistas alertaram para a necessidade de diferenciar ações emergenciais de estratégias permanentes de reparação. Programas dessa natureza demandam critérios claros, governança transparente, monitoramento contínuo e planejamento de transição para evitar tanto o desamparo precoce quanto a dependência prolongada.
A discussão também ampliou o conceito de reparação, que vai além das indenizações ou da reconstrução de estruturas físicas. Reparar envolve recompor relações sociais, fortalecer serviços públicos, restabelecer condições produtivas, reconhecer perdas imateriais, preservar a memória coletiva e criar bases para um desenvolvimento territorial mais resiliente.
“O simpósio reforçou que a consultoria social deve acompanhar os territórios ao longo do tempo, produzindo informações qualificadas e contribuindo para que as respostas sejam ajustadas à realidade das pessoas atingidas. Essa atuação é fundamental para apoiar processos de reparação que fortaleçam a autonomia econômica, as capacidades locais, a inclusão produtiva, o acesso às políticas públicas e a reconstrução das condições de vida das famílias atingidas.” destaca Carla.
Outro destaque da programação foi o debate sobre fundos perpétuos e modelos de financiamento de longo prazo, capazes de garantir que parte dos recursos de reparação continue gerando benefícios para os territórios mesmo após o encerramento dos programas. A discussão reforçou a importância de construir mecanismos que financiem a recuperação ambiental, o desenvolvimento local, o fortalecimento institucional e políticas públicas duradouras.
Nessa perspectiva, as reparações de grande escala precisam ser pensadas como legado. Isso exige governança robusta, transparência, participação social, monitoramento permanente e compromisso com as futuras gerações, garantindo que os investimentos realizados produzam benefícios sustentáveis ao longo do tempo.
As discussões também evidenciaram que reparação e prevenção devem caminhar juntas. Os casos analisados como as enchentes do Rio Grande do Sul, demonstraram a importância da gestão de riscos, da manutenção de estruturas de proteção, do planejamento territorial e da adaptação climática frente à intensificação dos eventos extremos.
O fortalecimento de planos de contingência, canais de comunicação, redes institucionais e processos de engajamento comunitário foi apontado como elemento fundamental para aumentar a resiliência dos territórios e reduzir vulnerabilidades futuras.
Como síntese, o simpósio reforçou que a contribuição das consultorias em processos de reparação está na capacidade de transformar a escuta territorial em informação estruturada, integrar evidências técnicas à tomada de decisão, apoiar modelos de governança, antecipar riscos de execução e acompanhar a efetividade das ações implementadas. Mais do que executar projetos, o desafio é contribuir para processos de reparação tecnicamente consistentes, territorialmente aderentes e sustentáveis ao longo do tempo.




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