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Primeira Infância e desenvolvimento territorial: o papel mobilizador da escola na rede de proteção

Publicado em: 28/08/2026

Por Indyra PontesAnalista Socioambiental da Synergia e Gisleine SilvaEstagiária da Synergia e Graduanda em Psicologia

A Primeira Infância é o período que vai da gestação aos 6 anos de idade e representa uma fase decisiva para o desenvolvimento humano. Nessa etapa, o cérebro está em intensa formação, criando bases importantes para a aprendizagem, a personalidade e as competências socioemocionais. As experiências vividas nessa fase influenciam diretamente o desenvolvimento da criança, podendo favorecer sua capacidade para estabelecer vínculos seguros e autonomia, ou, quando marcadas por violências e negligências, comprometer seu desenvolvimento saudável. 

Investir na Primeira Infância é uma estratégia essencial para reduzir desigualdades, enfrentar a pobreza e construir uma sociedade mais justa e sustentável. A promoção de saúde, educação de qualidade, proteção, nutrição adequada e ambientes seguros gera benefícios duradouros, como melhor desempenho escolar, redução da evasão e formação de adultos mais preparados para lidar com os desafios da vida. Por isso, quanto mais cedo forem garantidas condições adequadas de cuidado e desenvolvimento, menor será a necessidade de ações compensatórias no futuro. 

Estudos demonstram que a negligência e a falta de investimentos na Primeira Infância geram prejuízos econômicos de longo prazo, reduzindo a renda individual na vida adulta em até 20% e perpetuando o ciclo intergeracional da pobreza.  Por outro lado, aplicar recursos na Primeira Infância gera um retorno financeiro e social exponencial para o país.

Avanços Normativos e Desafios na Primeira Infância 

Conforme dados da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, no Brasil o número de crianças na faixa etária de 0 a 6 anos ultrapassa os 18 milhões, o que corresponde a 8,57% da população brasileira. A fonte também revela avanços importantes como: ampliação do acesso à creche e a pré-escola, forte atuação municipal na educação infantil, bons indicadores de crescimento infantil e vacinação, além da capacidade de identificar crianças em situação de vulnerabilidade social. Ao mesmo tempo, os dados apontam desafios a serem superados: o percentual de acesso a creche (38%) ainda está distante da meta nacional (60%), à pré-escola não foi universalizada, há fragilidades na garantia de acompanhamento adequado da gestação e do nascimento, na prevenção da mortalidade infantil, na promoção de alimentação e aleitamento adequados, no fortalecimento dos vínculos familiares e registro civil, além da exposição de crianças a situações de pobreza, violência e vulnerabilidade social. 

Nos últimos anos, o Brasil tem avançado na consolidação de normativas voltadas à Primeira Infância. Entre os destaques está a instituição da Política Nacional Integrada da Primeira Infância (PNIPI), pelo Decreto nº 12.574/2025. A medida organiza a atuação intersetorial e federativa nas áreas de educação, saúde, assistência social e proteção, reforçando que o desenvolvimento infantil depende de respostas coordenadas entre diferentes políticas públicas e níveis de governo. 

Também se destacam a Lei nº 15.220/2025 e a Lei nº 14.880/2024. A primeira alterou o Marco Legal da Primeira Infância para criar um sistema nacional de informações sobre o desenvolvimento integral das crianças de 0 a 6 anos. A segunda instituiu a Política Nacional de Atendimento Educacional Especializado a Crianças de Zero a Três Anos, conhecida como Atenção Precoce, com prioridade para crianças com deficiência, sinais de alerta no desenvolvimento ou nascidas em condição de risco. 

Esse conjunto de avanços evidencia que a primeira infância no Brasil vive um momento de fortalecimento institucional. O país já conta com um marco legal robusto, políticas nacionais mais integradas e novas iniciativas voltadas à produção de dados, à atenção precoce e à articulação entre áreas. Ao mesmo tempo, esse cenário reforça que a garantia de direitos das crianças de 0 a 6 anos depende de políticas públicas implementadas de forma coordenada, contínua e sensível às realidades locais. 

A intersetorialidade deve ser compreendida como eixo estruturante das políticas públicas para crianças de 0 a 6 anos, garantindo identificação precoce de demandas, encaminhamentos qualificados e acompanhamento contínuo das respostas oferecidas pela rede.  A ação intersetorial potencializa recursos humanos e financeiros por meio de estratégias conjuntas de gestão e ajuda a construir redes de assistência integral mais eficazes, especialmente para populações vulneráveis.

Crianças reunidas em mesas durante uma atividade coletiva em um ambiente de educação infantil, com acompanhamento de uma pessoa adulta ao fundo.
Momento de interação entre crianças na educação infantil. Foto: Adobe Stock

Por que o território importa para a Primeira Infância?

Embora as políticas públicas sejam formuladas em âmbito nacional, a garantia dos direitos das crianças acontece, sobretudo, nos territórios. É no cotidiano das comunidades que famílias acessam serviços de saúde, educação, assistência social, cultura e lazer. Por isso, as condições territoriais influenciam diretamente as oportunidades de desenvolvimento infantil.

Desigualdades no acesso à infraestrutura urbana, à mobilidade, à renda e aos serviços públicos podem ampliar vulnerabilidades e comprometer o desenvolvimento integral das crianças. Por outro lado, territórios que contam com redes articuladas de proteção e cuidado tornam-se mais capazes de identificar demandas precocemente, prevenir violações de direitos e apoiar famílias em situações de vulnerabilidade. 

Nesse sentido, fortalecer a Primeira Infância exige não apenas políticas setoriais qualificadas, mas também uma leitura integrada dos territórios e das múltiplas dimensões que influenciam o desenvolvimento infantil.

O papel mobilizador da escola na rede intersetorial

Alinhada às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), a educação infantil busca promover o desenvolvimento integral da criança na primeira etapa da vida. Esse trabalho envolve estimular a autonomia, criatividade, habilidades de vida diárias, vínculos socioafetivos, aspectos cognitivos e motores. Dentro da rede intersetorial, a escola posiciona-se como espaço fundamental de articulação social e promoção do cuidado integral. 

Como principal instituição social secundária, a escola desempenha um papel fundamental ao promover as primeiras experiências de convivência e regras sociais fora do núcleo familiar. É no ambiente escolar que a criança descobre um novo jeito de ser no mundo, desenvolvendo noções de cidadania, cooperação, respeito e empatia.  

Nesse processo, o educador atua como agente mediador, viabilizando, através de atividades pedagógicas, o contato com múltiplas linguagens, culturas, sentidos e experiências, além de promover momentos de descobertas. Portanto, a escola é muito mais do que um espaço temporário de recreação ou acolhimento: é um ambiente dinâmico que estimula conexões essenciais para o desenvolvimento neurológico, emocional e social da criança. 

As creches e pré-escolas ocupam lugar estratégico por acompanhar cotidianamente a rotina das crianças, identificar sinais de alerta, dialogar com as famílias e acionar a rede de proteção quando necessário. Assim, a educação infantil não se limita à dimensão pedagógica: ela também atua como espaço de observação, prevenção, encaminhamento e acompanhamento compartilhado das demandas que impactam o desenvolvimento infantil. A educação atua como principal agente mobilizadora dos demais atores que compõem a rede intersetorial de cuidado à Primeira Infância.

A atuação da Synergia no Fortalecimento dos Territórios e da Primeira Infância 

Na prática, transformar diretrizes e políticas públicas em resultados concretos para as crianças exige articulação entre instituições, fortalecimento das redes locais e desenvolvimento de capacidades nos territórios. Nesse contexto, a atuação socioambiental desempenha um papel estratégico ao apoiar governos, organizações e comunidades na construção de soluções integradas voltadas à proteção e ao desenvolvimento infantil. 

A efetivação das políticas voltadas à Primeira Infância exige não apenas diretrizes normativas consistentes, mas também estratégias capazes de traduzir essas orientações em ações concretas nos territórios. É nesse cenário que a atuação da Synergia ganha relevância ao contribuir para o fortalecimento das redes locais de cuidado e proteção às infâncias. A partir da escuta, da mobilização social, do fortalecimento de redes e da construção compartilhada de soluções, a consultoria contribui para ativar capacidades locais e aproximar os serviços das necessidades reais das comunidades. 

Entre as principais contribuições dessa atuação, destacam-se: 

  • Qualificação técnica de profissionais que atuam diretamente com a Primeira Infância;  
  • Fortalecimento da articulação intersetorial entre os serviços do território;  
  • Promoção de espaços de troca de experiências e compartilhamento de boas práticas, desenvolvidas a partir de Comunidades de Práticas 
  • Apoio à construção coletiva de soluções para desafios locais. 

Essa abordagem favorece uma atuação mais coordenada dos serviços e amplia a capacidade dos territórios de responder às demandas das crianças e de suas famílias. Assim, a atuação vai para além da capacitação técnica e se consolida como uma estratégia de desenvolvimento territorial, capaz de apoiar ações integradas em benefício das crianças, famílias e comunidades.

Nesse contexto, a intersetorialidade deixa de ser apenas uma diretriz de gestão e passa a representar uma estratégia essencial para enfrentar desigualdades, fortalecer comunidades e ampliar as possibilidades de desenvolvimento infantil.

Ao apoiar a mobilização de atores, o fortalecimento das capacidades locais e a construção de respostas integradas às necessidades dos territórios, iniciativas como as desenvolvidas pela Synergia contribuem para transformar diretrizes em ações concretas e promover impactos duradouros para crianças, famílias e comunidades.

Investir na Primeira Infância é investir na capacidade de uma sociedade construir um futuro mais justo, resiliente e sustentável para todos. 

 

4 – Educação de qualidade
10 – Redução das desigualdades
3 – Saúde e bem-estar
1 – Erradicação da pobreza

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