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Prosa Pantaneira: especialistas explicam o motivo das queimadas no Pantanal em 2020 e desmentem as principais fake news

Publicado em: 12/02/2021

Os esforços para recuperar o Pantanal, devastado pelas fortes queimadas de 2020, renderam diversas notícias na mídia. Porém, com a notoriedade do tema, surgiram muitas fake news (notícias falsas), algumas vindas, inclusive do governo brasileiro.

Entendendo a importância de esclarecimento dos fatos, e para encerrar os eventos da Campanha Synergia Em Defesa do Pantanal, realizamos o encontro Prosa Pantaneira.

O bate-papo com especialistas que estão atuando no monitoramento dos danos causados, na restauração e na preservação do Pantanal, entre outras ações, trouxe diversos pontos de vista para ajudar a ilustrar a real situação do bioma e acabar de vez com as dúvidas deixadas pelas notícias falsas.

Convidamos para essa importante conversa sobre o Pantanal:

  • Diego Arruda, veterinário e comunicador, responsável pelo departamento de marketing do SOS Pantanal.
  • Felipe Dias, engenheiro agrônomo com mestrado e doutorado em geografia física, atua como diretor executivo do SOS Pantanal desde 2015.
  • Márcio Yule, coordenador estadual do Ibama/PrevFogo em Mato Grosso do Sul.
  • Renata Libonati, professora do dep. de meteorologia da UFRJ. Atua com pesquisas focadas na produção de dados de área queimada para o Pantanal.

Confira o vídeo do encontro Prosa Pantaneira na íntegra e saiba mais sobre as perguntas e respostas mais relevantes acerca das queimadas no Pantanal. 

Agora você confere um resumo dos principais temas abordados durante o encontro.

Qual foi o real motivo das queimadas no Pantanal?

Muito se questionou sobre a possibilidade de uma zona úmida como o Pantanal sofrer com queimadas tão intensas. Mas o histórico de fogo na região não é novidade, apenas foi agravado pela época das secas, mais intensa e prolongada em 2020, e o baixo nível de inundação da área, somados a outros fatores, como os focos de incêndios.

Em 2020, o Pantanal perdeu mais de 30% de sua área para as queimadas. Os impactos ainda estão sendo analisados, mas tudo indica que serão duradouros, com grande prejuízo para o solo, a fauna e flora locais.

Segundo Renata Libonati, a sequência e a gravidade das queimadas estão piorando por questões climáticas, aumento de temperaturas e impactos humanos. A variação da precipitação, de chuvas, e da umidade no Pantanal é governada por processos climáticos que ocorrem como consequência das variações de temperatura das superfícies dos oceanos Pacífico e Atlântico.

Os baixos níveis do Rio Paraguai também agravaram as condições, favorecendo o que ela chama de “Triângulo do Fogo”, composto por três ingredientes que impulsionam as queimadas: um comburente (condições meteorológicas), um combustível (vegetação/biomassa) e a ignição (ação humana – intencional ou não).

Sobre as condições meteorológicas, Renata aponta que sem a mitigação do aumento das mudanças climáticas, o aumento da temperatura média global irá resultar em eventos de queimadas mais frequentes. No pantanal, desde 1980, as temperaturas aumentaram 2 °C e a umidade caiu cerca de 25%, em média.

Já sobre a segunda parte da equação, o combustível, Felipe Dias lembra que a região circundante do Rio Paraguai é composta por um solo de raízes profundas, de grande facilidade para queimas e maior dificuldade de controle, fornecendo um dos ingredientes para esse cenário.  

Quanto ao processo de ignição, os especialistas apontaram que as causas naturais, como raios, podem acontecer. Mas que dificilmente esses incêndios não são causados por ação humana. 

Vale lembrar que o uso do fogo como ferramenta de manejo da terra é proibido no Pantanal de agosto a outubro, e que todos os incêndios começaram fora das unidades de conservação.

Combate às chamas no Pantanal

Os trabalhos de combate às queimadas no pantanal, assim como as imagens da tragédia, chamaram a atenção no mundo todo. Mais de 250 pessoas, entre brigadistas, combatentes do Corpo de Bombeiros e voluntários se empenharam na missão de apagar as chamas que consumiam a área.

Márcio Yule destaca a atuação das brigadas indígenas, dos moradores treinados que dão o primeiro combate, e que foram fundamentais para a ação emergencial contra os incêndios, atuando também a partir das informações do LASA - Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais do Departamento de Meteorologia da UFRJ, e o apoio do exército.

A segurança de combatentes, brigadistas e voluntários foi colocada constantemente em risco, pelos fortes ventos que espalhavam o fogo. Um brigadista do ICMBio faleceu tentando resgatar animais de um incêndio, em agosto, a queda de um helicóptero usado no combate matou o piloto, e a morte de um zootecnista em uma propriedade no Mato Grosso foram algumas das perdas humanas registradas.

Outras preocupações das equipes foram o calor, os combates noturnos e a falta de água potável, além da situação de pandemia de Covid-19, que dificultou as logísticas de alocação de tantas pessoas envolvidas. 

Prosa Pantaneira: macaco em floresta queimada

Foto: Gustavo Figueiroa

Entendendo a real situação do Pantanal e desmentindo as fake news

Confira as principais fake news que foram compartilhadas sobre a tragédia ambiental no Pantanal e a opinião dos/da especialista/s sobre elas. 

Brigadistas do ICMBio provocando queimada criminosa

Diego Arruda: Não faz sentido acusar as pessoas que estão combatendo de colocarem o fogo.

Márcio Yule: Era um combate indireto e eles estavam fazendo a proteção da unidade de conservação por meio de uma queima de expansão. Ela foi realizada para que, quando o incêndio chegasse nessa área, se extinguisse ou ficasse mais fácil de combater, uma vez que o combustível do fogo já havia sido consumido ali.

 

Queimadas são provocadas por fazendeiros

Diego Arruda: A gente precisa deixar bem claro que grande parte dos incêndios inicia pela ação humana, só que muitas vezes não é criminosa e não é intencional. As pessoas fazem um manejo errado desse fogo nas limpezas de área. Essa queima é histórica no Pantanal. Infelizmente, quando a gente une todos esses fatores, essa queima acaba não sendo mais controlada.

 

Povos indígenas prenderam integrantes de ONGs que atearam fogo na região

Diego Arruda: A gente sabe que para adentrar as terras indígenas muitas vezes existe um processo de negociação. Mas essa notícia não é verdadeira, a gente não teve nenhuma ação desse tipo.

Márcio Yule: Hoje, no Brasil, o indígena é um grande aliado na prevenção e no combate a incêndios florestais. Ele tem um conhecimento empírico imenso, e com essa experiência do uso do fogo, que é cultural no índio há muito tempo, eles conseguiram conduzir as terras indígenas como se fossem ilhas de conservação no Brasil, junto com as unidades de conservação federal e dos estados.

 

Boi bombeiro - criação de gado poderia impedir as queimadas no Pantanal

Diego Arruda: A atividade pecuária é muito importante para a economia pantaneira. Os bois consomem a matéria orgânica, que serve como combustível. Porém, os governantes têm falado que a criação de gado tem diminuído e isso não é realidade. Nos últimos 20 anos, houve um aumento de quase 43% no número de cabeça de gados.

Além disso, precisamos considerar que estão falando “Ah, se nas unidades de conservação tivesse gado consumindo, iria diminuir.” Mas as unidades de conservação são só 5% do Pantanal. E as queimadas aconteceram principalmente em áreas que a gente tem a criação de gado e as fazendas.

 

Discurso do presidente Bolsonaro na ONU – o que é fato e o que é fake?

Renata Libonati: Durante esse discurso nós ouvimos que o Brasil estaria sendo vítima de uma campanha de desinformação em relação à Amazônia e ao próprio Pantanal, inclusive dizendo que a Floresta Amazônica é uma região úmida e que só pega fogo nas bordas.

Isso é um discurso completamente desatualizado, porque a umidade da Amazônia já não é barreira para o fogo há muito tempo, com o crescente aumento do desmatamento, que facilita a penetração do fogo nessa região.

Ele [o presidente] chegou até a questionar o monitoramento de fogo por satélite que é feito no Brasil. Todas as técnicas que utilizamos, e falo porque já trabalhei muito tempo no INPE e hoje em dia também fazemos  o monitoramento na UFRJ, que são amplamente utilizadas pelas maiores agências europeias de monitoramento de satélite, pela NASA, por todas as agências globais. Não tem nenhum fato que demonstre que as técnicas utilizadas pelas instituições brasileiras de pesquisa e pelas universidades sejam equivocadas em relação ao correto monitoramento do fogo.

Diego Arruda: Não podemos culpar o governo, exclusivamente. Mas também não dá para a gente isolar a parcela de responsabilidade dele. O que precisamos fazer é pensar que a gente tem que dar subsídios para que os governantes possam tomar as melhores decisões. Aqui é a nossa parcela, a gente precisa levar a informação de forma correta e, de alguma maneira, nesse governo ou em outros governos, torcer para que eles entendam e respeitem as visões que a gente está trazendo, porque estamos baseados em ciência.

 

*Na próxima notícia sobre a Prosa Pantaneira, traremos as respostas dos especialistas para todas as perguntas do público que foram feitas durante a Live e conversaremos sobre como é possível ajudar às ONGs nessa tarefa de ajudar o Pantanal. Não perca!*     

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